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sexta-feira, 15 de junho de 2012

Expectativas, ansiedade e felicidade

A relação entre a ansiedade e a felicidade sempre foi complexa e comumente mal compreendida.

No livro Ansiedade tem cura, de Júlio Parreira, o autor demonstra que estes conceitos, vistos, geralmente, como antíteses ("Ou estamos felizes e, naturalmente, não ansiosos, ou ansiosos e, evidentemente infelizes.) são na realidade relacionáveis e harmonizáveis.


Segundo, Júlio, "a ansiedade é a regra, a felicidade é a exceção.". Contudo, essa exceção justifica e alimenta a existência da regra. Enquanto a felicidade consiste no arrefecimento momentâneo da ansiedade, ao conquistar-se o êxito de uma meta específica, esta dura pouco tempo, sendo logo seguida pela geração de outra(s) ansiedade(s).

O autor aclara que nem sempre a felicidade é a recompensa por uma relação coerente com a ansiedade, mas o ganho consiste em si próprio, ou seja, no relacionar-se melhor com essa, que é uma "instância fundamental do ser humano.".


Ansiedade e felicidade são confundidas quando supõe-se que nossos anseios conduzir-nos-ão à felicidade. Júlio deixa claro que a ânsia e a realização são tão confundidas, que vemos crianças que logo após ganharem seu esperado presente de Natal, deixam-no de lado, pelo simples fato da ânsia ter sido saciada.


Por fim, o autor evoca uma pérola da filosofia, especificamente, o conceito de suficiente, para definir a diferença entre as boas ânsias e as más ânsias, já que algumas ânsias produzem mais ânsias e outras, promovem o arrefecimento ansiogênico.


Júlio traz à discussão o conceito de suficiente. Quanto nos é suficiente? Muito? Muito dinheiro, muitos amigos, muitos prazeres?


Contudo, os gregos por meio do conceito de métron, ou justa medida, nos ajudam a chegar a uma boa conclusão sobre a questão: tudo é bom, na porção adequada, o que demonstra que o antônimo é verdadeiro, ou seja, tudo em porção inadequada é mal. Até mesmo as coias boas, quanto desfrutadas de modo desmedido produzem danos.


Júlio, de modo preciso aponta a perda da noção de justa medida, como uma das principais razões pelas quais o mundo atual padece do "mal da ansiedade".


Trazendo à lume a questão de quanto dinheiro carecemos para sermos felizes, o autor evoca o pensamento de Epicuro (341-270), que provava ser de bem pouco. Esse filósofo, fundador de uma escola em Atenas, em 306 a.C., onde reunia seus discípulos em um jardim, o que fez daquela conhecida como "Jardim" (Kepos), retomador dos conceitos atomistas de Demócrito e Leucipo, postulou que além de suficiente dinheiro, o ser humano precisa de amigos; e além desses, de tempo para desfrutar de sua convivência.


Baseado em Epicuro, destaca Júlio - "De que adianta termos muito dinheiro, poucos amigos e nenhum tempo para estar com eles?" Segundo o filósofo, a justa medida, o métron, seria: 

"Algum dinheiro + bons amigos o suficiente + um certo tempo para usufruir com eles = Felicidade.".

Júlio demonstra ser a felicidade simples e objetiva, voltada ao real, enquanto que a tensão encontra-se em nossa adequação à simplicidade inerente ao vivê-la. Devemos adequar nossas ansiedades e cobranças ao nível da realidade do tangível, do prático.

O autor inova ao afirmar que a felicidade é tema "sólido", assim como a realidade, não pertencendo aos limites da fantasia.


Bem ajustada, ou seja, nivelada às demandas reais, práticas, a ansiedade funciona como mecanismo natural e desenvolvedor do ser humano, conciliando-se com a felicidade. "A ansiedade pode ser feliz", é uma das frases-pérolas do livro, demonstrando ser aquela um elemento que pode ser transportado do nível tensional para o natural, estrutural e estruturante.


Fazendo um aparte, a fim de esclarecer mais a questão em foco, teço abaixo alguns comentários sobre a questão filosófica da felicidade.


O princípio da felicidade promoveu a criação de um campo filosófico, a saber, a eudemonologia, que lida com a arte de obter-se um bom daimon ou gênio, ou seja, a arte de ser feliz.


Segundo a visão epicurista, assim como a estoica, a felicidade (eudaimonia) era alcançada pela imperturbabilidade (ataraxia), divergindo do pensamento estoico quanto ao modo de alcançar tal felicidade.


Valorizando a inteligência prática (phronesis), não viam conflito entre razão e paixão. Segundo a visão epicurista, a ética é praticada por meio do alcance da ataraxia (tranquilidade), viabilizada por meio da valorização do prazer (hedoné). Contudo, o prazer aqui, trata-se da satisfação dos desejos e necessidades naturais ao homem, saciedade essa que deve ser alcançada de modo equilibrado, moderado e não sob a égide de um hedonismo desenfreado, visão distorcida essa que tentaram, incorretamente, imprimir ao epicurismo.


Freud demonstrou suficientemente os danos psíquicos provocados por um comportamento auto-cerceador, que nega a realização dos prazeres naturais e fundamentais da vivência humana.


As Escrituras Sagradas demonstram amplamente a saúde inerente à realização dos prazeres e necessidades humanas naturais (comer, manter relações sexuais, beber, vestir-se, morar em ambiente agradável etc.), desde que ocorrendo dentro de estruturas sociais sagradas (casamento, trabalho - é preciso ver o trabalho como atividade que glorifica a Deus! - etc.), desassociada da idolatria ao prazer ou aos objetos de prazer, e submetida à ética Divina (lembrando que a teologia da prosperidade incorre no extremo da idolatria!).


É óbvio que o Epicurismo possui seus problemas, afinal, seus seguidores negavam a existência de um Deus portador de propósitos, zombando de divindades pagãs da mitologia. Ligados a uma visão atomista e materialista, criam que a alma se dissolvia na morte, vendo como objetivo da vida a gratificação, embora como mencionei anteriormente, de modo moderado. Contudo, a visão de Epicuro sobre a necessidade da moderação na ânsia por coisas materiais, e de relacionar essas com outras necessidades importantes (amizades e tempo para desfrutá-las) é válida e enriquecedora. Seu valor consiste em levar-nos à ponderação sobre a pluralidade de elementos que compõem o "estado de felicidade", e mostrar-nos que a demésure, ou desmedida, das coisas, mesmo que fundamentalmente boas, mantém o ciclo da ansiedade anormal e da infelicidade.


É preciso pontuar também - para os "super-crentes" de plantão! - que a ansiedade combatida e remediada pelas Escrituras Sagradas em referências como Mt 6:25-34 e Fl 4:6,  nada tem haver com a ansiedade natural e estrutural do ser humano por realizações contínuas. Jesus, ansiou celebrar com os discípulos seu último Sêder (ordem de/ceia) Pascal (Lc 22:15). O salmista fala de sua ânsia por Deus (Sl 42:1). Pedro nos conclama a ansiarmos pelo genuíno leite da Palavra (I Pe 2:1-3).


A ciência e a Bíblia demonstram que a ansiedade que foge ao real, que fixa-se em fantasias hiperbólicas e na determinação do indeterminável (como será o amanhã - quem pode com segurança definir isso?) é a ansiedade a ser tratada e evitada.


Outra coisa importante a dizer é que, o livro não foi escrito por um psicólogo e não é uma obra científica, técnica. Para alguém interessado em Psicologia e em psicoterapia, e, portanto, focado em conhecimentos científicos, certas partes do livro realmente incomodam, pois mostram uma imensa lacuna epistemológica e técnica. Algumas "dicas" oferecidas no capítulo "Superando a ansiedade" são risíveis de tão vagas e inusitadas.


Entretanto, deve-se fazer jus à capacidade do autor de iniciar os capítulos com frases preciosas de vários autores, bem como de explorar - com sua fluência literária inquestionável - conceitos filosóficos de valia na reflexão sobre a ansiedade. E é partindo de um extrato de análise filosófica da obra em questão, que surge o presente texto, elogiando um real (e precioso) acerto por parte de Júlio Parreira.


Finalizando o parte, e retornando ao comentário sobre a visão de Júlio Parreira, encerro, destacando que o autor, magistralmente aponta o humano como medida única para a felicidade. Quando a ansiedade firma-se sobre expectativas tangíveis, e que respeitam o ser "humano", quando levam a pessoa à desenvolver-se na marcha rumo ao real, torna-se positiva, e parte integral e importante do processo do viver.

Tiago Corrêa

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