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quarta-feira, 6 de março de 2013

"NÃO DESAFINEIS..."

A precisão técnica é muito buscada e relevante para o exercício do ministério de música eclesisástica, e sobretudo para os cantores.

Embora exemplos de pessoas que levam sua vida ministerial sob o mote: "Não se preocupe, pois é para o Senhor!" ainda sejam vistos, muitos nos dias hodiernos têm acordado para a necessidade de uma busca por excelência no seu serviço a Deus.

Especificamente os cantores litúrgicos, aqueles que cuidam do canto congregacional, têm investido cada vez mais na formação musical, a fim de agregarem recursos que podem ser utilizados por Deus nas ministrações. Embora saibamos que o Senhor geralmente concede um "bônus" ao exercício ministerial e que sobrepuja a técnica acumulada, Ele constantemente usa aquilo que já pôs em nossas mãos.

A técnica vocal apurada é imediatamente percebida pelos ouvidos mais sensíveis e educados, e muitas vezes é tratada de modo diverso tanto por seus portadores - em meio aos músicos eclesiais - quanto pelos demais irmãos da Igreja.

Enquanto, como disse, ela é um auxílio importantíssimo para o exercício ministerial do ministro cantor, pode tornar-se um ídolo para ele e para os demais, ou mesmo um nível escravizador de constância prática.

Enquanto algumas pessoas, ao ouvir um cantor excelente, podem perder-se da adoração, fixando-se na admiração da sua técnica vocal, e depois fazendo elogios exagerados, os próprios cantores podem idolatrar sua excelência vocal, tornando-a o "carro-chefe" de suas ministrações. Com o tempo tendem a acabar esquecendo-se dos elementos písticos e devocionais que são, de fato, mais importantes para a sustentação de seu exercício ministerial. Não disse que a técnica vocal apurada não é importante. É e muito, mas para o ministro de canto não é o mais importante elemento que compõe sua vocação e prática ministeriais. Sua fé na obra salvífica de Deus, e sua comunhão diária com Ele são a base onde a técnica pode firmar-se como artefato agregador.

Além da tentação da idolatria ao próprio recurso vocal apurado, um cantor litúrgico pode tornar-se escravo de um padrão elevado de execução musical. Alguns cantores tornam-se tão "neurados" com a possibilidade de desafinarem, que quando isso ocorre, parecem que toda a ministração foi perdida por causa daquela "escorregada".

O princípio de que "errar é humano" parece ser esquecido por alguns ministros cantores. De fato é desconfortável desafinar, sobretudo quando isso fica muito evidencidado numa canção. Lembro-me de certa vez, ter desafinado ao fazer o back vocal num período litúrgico. Confesso que torci para que as pessoas não o tivesse percebido, e como o conjunto sonoro estava tão denso no momento, não permitindo um maior destaque de minha voz, é bem possível que "tenha passado em branco". No momento, minhas pregas vocais pareciam ter dado um nó. Mas, passando o natural desconforto imediato, Deus agraciou-me com paz para seguir servindo através do canto.

O ministro cantor deve sempre buscar louvar a Deus com júbilo e com excelência técnica. Temos o exemplo bíblico no qual Davi, ao instaurar o canto litúrgico no tabernáculo, colocou-o sob o cuidado de levitas que fosse mestres de canto (I Cr 25:7). Embora a busca por excelência seja inegociável, um ministro cantor não precisa ver-se como inapropriado para o exercício ministerial caso falhe tecnicamente em algum momento, ou possua limitações técnicas aceitáveis.

Até mesmo experientes e virtuosos cantores desafinam em algum momento. Kelly Clarkson, ao fazer um duo com Alexandre Pires, durante apresentação no Latin Grammy Awards 2003, demonstrou que profissionais do canto podem falhar. E, para os sensatos, esse fato não desfaz a verdade de que ela possui uma voz linda e um canto preciso (apreciem seu repertório e estilo ou não - não é essa a questão aqui) E nesse exemplo, ela foi traída pelo melisma¹.


Toda hora é hora para um desafino; contudo, os melismas geralmente proporcionam mais oportunidades para isso, porque ao articular a mandíbula de modo rápido e ligeiramente solto, o cantor lança-se em certo "buraco-negro tonal", crendo que sua articulação mente/estrutura fonadora funcionará de modo preciso. Acontece, e com frequência para os mais hábeis. Entretando, certamente em algum momento para esses e mais frequentemente para os menos hábeis, não ocorrerá. E então vêm as semitonadas, no mínimo, e os desafinos tonais, no máximo. Buá... É chato, de fato. 

Ah... a questão do alcance vocal também oferece palco para momentos sublimes ou trágicos no canto. Já assisti a uma cerimônia de casamento durante a qual, uma moça ousou cantar num tom muito acima de seu alcance vocal. Resumindo: ela não alcançou a nota, ficou nervosa e isso influenciou negativamente toda a continuação de sua execução. Foi trágico. Parecia querer um pó ninja para jogar aos pés, e sumir de modo rápido e minimamente doloroso. O caminho do altar ao seu banco parecia quilométrico e o instante milenar.

Cantar tem dessas coisas. Errar é humano. Desafinar faz parte das imperfeições possíveis, e como supracitado, até para os mais experientes na área. Desafinar esporadicamente não é o fim do mundo.

Vale à pena refletir acerca das palavras sensatas de Gal Costa, postadas hoje (06/03/13), em matéria da Folha de São Paulo Online, justificando seu criticado desafino, durante apresentação de sua turnê "Recanto", em São Paulo, em 2012:

"Transformei o show num acontecimento, em algo bonito. Se eu desafinei é porque estava com faringite. Quem não desafina? Todo mundo um dia desafina, ninguém é tão perfeito assim..." "(...) O ser humano não é máquina, a tendência é afinar. Eu sou afinada, agora, não vou dizer que eu nunca desafinei na vida, que João Gilberto nunca desafinou. Todo mundo pode desafinar e desafina..."

 Deixo uma mensagem para os ministros cantores, em forma de paráfrase ao texto de I João 2:1:

"Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não desafineis; e, se alguém desafinar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo."

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NOTA
1 - "Melisma em música é a técnica de transformar a nota (sensação de frequência) de uma sílaba de um texto enquanto ela está a ser cantada."(Fonte: Wikipédia).

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